Tirzepatida: como funciona, para quem é indicada e o que dizem os estudos científicos

A obesidade é uma doença crônica, não apenas uma questão estética

Durante muitos anos, o excesso de peso foi tratado como consequência exclusiva de maus hábitos ou falta de disciplina. Hoje, a ciência demonstra que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial e complexa, influenciada por fatores genéticos, hormonais, metabólicos, ambientais e comportamentais.

Por isso, o tratamento da obesidade evoluiu significativamente nas últimas décadas. Além das mudanças no estilo de vida, novas terapias medicamentosas passaram a atuar diretamente nos mecanismos biológicos que regulam a fome, a saciedade e o metabolismo.

Entre esses avanços está a tirzepatida, medicamento que vem apresentando resultados expressivos em estudos clínicos para controle do peso e melhora da saúde metabólica.

O que é a tirzepatida?

A tirzepatida é um medicamento injetável de aplicação semanal que atua como agonista de dois receptores hormonais: GIP (Polipeptídeo Insulinotrópico Dependente de Glicose) e GLP-1 (Peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1).

Essa ação dupla representa uma diferença importante em relação aos medicamentos que atuam apenas sobre o GLP-1.

Esses hormônios participam naturalmente da regulação do metabolismo após as refeições, influenciando: sensação de saciedade; controle da glicemia; esvaziamento gástrico; secreção de insulina; ingestão alimentar.

Como consequência, muitos pacientes apresentam redução importante do apetite e maior facilidade para manter um déficit calórico, quando associado a acompanhamento médico e mudanças no estilo de vida.

Como a tirzepatida ajuda no emagrecimento?

O medicamento não “queima gordura” diretamente.

Seu principal mecanismo consiste em facilitar o controle da ingestão alimentar por meio da modulação dos hormônios relacionados à fome e à saciedade.

Entre seus principais efeitos estão: aumento da saciedade; redução do apetite; menor velocidade de esvaziamento do estômago; melhora do controle glicêmico; redução da ingestão calórica espontânea.

Esses efeitos ajudam muitos pacientes a aderirem ao tratamento de forma mais consistente, reduzindo episódios de fome intensa e compulsão alimentar.

O que mostram os principais estudos científicos?

Um dos estudos mais importantes sobre tirzepatida é o SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine. O estudo acompanhou adultos com obesidade ou sobrepeso, sem diabetes, durante 72 semanas.

Os resultados chamaram atenção da comunidade científica: perda média de aproximadamente 16% do peso corporal com 5 mg; cerca de 21% com 10 mg; aproximadamente 22% com 15 mg.

Além disso: mais de 90% dos participantes tratados com as doses mais altas perderam pelo menos 5% do peso corporal; cerca de 57% dos participantes utilizando 15 mg perderam 20% ou mais do peso corporal, resultado muito superior ao grupo placebo.

Esses números colocaram a tirzepatida entre as terapias medicamentosas mais eficazes já estudadas para o tratamento da obesidade.

Além da perda de peso, quais benefícios foram observados?

Os estudos também demonstraram melhora em diversos parâmetros metabólicos, incluindo: redução da circunferência abdominal; melhora da pressão arterial; melhora do controle glicêmico; redução de fatores de risco cardiometabólicos.

Em acompanhamentos prolongados, pacientes que permaneceram em tratamento conseguiram manter grande parte da perda de peso obtida inicialmente, reforçando a importância do acompanhamento contínuo.

Quais são os possíveis efeitos adversos?

Assim como qualquer medicamento, a tirzepatida pode provocar efeitos adversos.

Os mais comuns são gastrointestinais, principalmente no início do tratamento: náuseas; vômitos; diarreia; constipação; desconforto abdominal.

Na maioria dos casos, esses sintomas tendem a diminuir conforme ocorre a adaptação do organismo e o ajuste gradual das doses.

Quem pode utilizar a tirzepatida?

A indicação deve ser sempre individualizada e realizada por um médico.

De forma geral, ela pode ser considerada para adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, sempre dentro de um plano terapêutico que inclua alimentação, atividade física e acompanhamento clínico.

A tirzepatida é suficiente para emagrecer?

Não.

Embora seja uma ferramenta importante, o medicamento não substitui hábitos saudáveis.

Resultados consistentes dependem de uma estratégia que envolva: avaliação médica; plano alimentar individualizado; atividade física; acompanhamento contínuo; monitoramento da evolução.

O tratamento deve ser visto como parte de um processo mais amplo de cuidado com a saúde.

Conclusão

A tirzepatida representa um dos maiores avanços recentes no tratamento medicamentoso da obesidade. Os estudos clínicos demonstram resultados expressivos na perda de peso e na melhora de parâmetros metabólicos, especialmente quando o tratamento é associado a mudanças no estilo de vida e acompanhamento médico. Mais do que buscar soluções rápidas, o objetivo deve ser compreender as causas do excesso de peso e construir uma estratégia personalizada, segura e sustentável para cada paciente.

Referência Científicas

  • Jastreboff AM et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine, 2022.
  • Jastreboff AM et al. Registro no PubMed do estudo SURMOUNT-1.
  • Sinha R et al. Efficacy and Safety of Tirzepatide in Type 2 Diabetes and Obesity. 2023.
  • Revisão sistemática sobre eficácia e segurança da tirzepatida em sobrepeso e obesidade. 2024.